Um lugar maior que o tempo

Um lugar maior que o tempo

O Monte da Penha, em Guimarães, pode parecer um amontoado de pedras. Mas quem se abriga debaixo delas encontra segredos e sabores que valem a pena desvendar.

Com o indicador de bateria no máximo depois de uma passagem num ponto Mobi.e, foi quase com a atitude de quem está dentro de um jogo virtual que fizemos os cerca de 10 quilómetros que nos separavam do centro de Guimarães e do Monte da Penha. O painel do C350e indicava se a nossa condução estava a cumprir com objetivos ecológicos ou se nos estávamos a deixar entusiasmar pelas curvas que nos levavam a subir até ao Monte de Santa Catarina, ajudados pelos dois motores do híbrido que em conjunto debitam cerca de 280 cavalos.

 

É nesse monte que se esconde a Adega do Ermitão, e esconder não é um verbo que esteja a ser usado fora do contexto.

 

Não fora a ajuda de Armindo Monteiro, que tem sido a cara da Adega nos últimos 40 anos, e talvez ainda estivéssemos a vaguear pelas formações rochosas cobertas de musgo que constituem o Monte da Penha. Nas fendas destas rochas maciças, gigantescas, a natureza e o homem uniram esforços e nasceu a gruta de Nossa Senhora do Carmo, um santuário natural e religioso ao mesmo tempo. Levando-nos a passar por baixo de rochas de milhares de toneladas que parecem suspensas em pleno ar, Armindo Monteiro leva-nos até à sua segunda casa, um lugar de convívio que não pertence a este tempo.

Entre garrafões típicos, usados para encher as malgas de vinho tradicionais que repousam nas mesas de madeira, debaixo de um teto de pedra, a famosa bola de sardinha iludiu-nos, não estava presente. Só é feita em determinados dias e em certos períodos de celebração religiosa, segundo nos indica o senhor Armindo, fazendo-nos garantir que estaríamos de volta na altura certa. A descrição deixa-nos intrigados o suficiente para concordar: sempre feita na hora, a bola é uma espécie de pizza feita apenas com farinha e colocada no forno a lenha com uma pá de madeira, na qual se enrolam as sardinhas fritas.

Curioso mundo este em que debaixo de uma rocha tão antiga como o tempo – e quase maior do que ele – as pessoas se juntam para celebrar Nossa Senhora e Epicuro, servindo a natureza de templo para ambos. E por merecer respeito solene, quando nos afastamos, fazemo-lo em silêncio, sem fazer soar o motor a gasolina do C350e.