Um dia em grande

Um dia em grande

As margens de um rio são o local perfeito para um dia bem passado em família

 

“Quando na minha terra as flores se anunciam
e as belas raparigas acordam entre a chuva
com o azul dos seus olhos forrando um céu recente,
então sei que viver é ser um rio apenas.”

 

As palavras são de José Terra e a terra de que fala este poeta, Arcos de Valdevez, merece certamente estes e todos os outros versos que já possa ter inspirado. Nas margens do rio Vez, a vida parece mais acolhedora, mais brilhante. Talvez seja o reflexo do sol neste calmo percurso de água a dar maior encanto à zona envolvente, mas o que é certo é que Arcos de Valdevez respira de uma forma diferente, como se o tempo tivesse de certa forma parado para contemplar a beleza do nosso mundo.

Chegamos a Arcos a meio da manhã, depois de cerca de uma hora de viagem ao volante de um Classe A que desde logo, à partida da cidade do Porto, se apresentou como a opção certa. Ágil a fugir do trânsito da cidade, dono de si na autoestrada em direção a norte e em plena sintonia com o traçado ziguezagueante no meio da serra. O dia começava da melhor forma possível.

Falar de Arcos de Valdevez é falar da sua ponte, um símbolo histórico da região que, na sua forma original, data de bem perto da consagração da nacionalidade do nosso país. A ponte que vemos hoje, construída em 1876, é uma inovação em relação à travessia que ajudou a moldar toda a região e que testemunhou os primórdios de Portugal.

Mas nem só da ponte sobre o rio Vez se faz esta vila. Conduzir pelas suas ruas é uma viagem no tempo, passando em frente aos seus monumentos e casas históricas. Um desses exemplos, a Igreja da Lapa, com os seus estilos Barroco e Rococó a dominar toda uma praça no centro histórico, obriga a uma passagem mais lenta, contemplativa. Esse é, aliás, o sentimento em relação a toda a vila, o de que deve ser observada como uma obra de arte, mais do que como um local.

Na busca por maior conhecimento histórico, como se quiséssemos escrever a legenda do quadro que é Arcos de Valdevez, o Paço de Giela apresenta-se como uma fonte de história e estórias que merece bem os quilómetros que percorremos. Este Monumento Nacional foi alvo deuma requalificação arqueológica em anos recentes e, com a sua abertura neste último verão, Arcos anha um polo cultural e histórico de enorme interesse, especialmente para quem viaja com crianças curiosas.

Para além do fascínio natural que a torre suscita, dando azo à imaginação fértil dos mais novos que instantaneamente se sentem transportados para a época medieval, o Paço da Giela é uma experiência didática que serve de exemplo a muitos outros monumentos do nosso país. A integração das novas tecnologias, da interatividade da sua exposição, garante exclamações de surpresa e espanto, cativando a audiência – infantil ou adulta – do princípio ao fim da visita. Para além de ficarmos a saber mais sobre o “Recontro de Valdevez”, um episódio marcante em que D. Afonso Henriques e Afonso VII de Leão e Castela selecionaram os seus melhores cavaleiros para participar num torneio e assim decidirem a sua disputa (evitando muito sangue derramado no campo de batalha), no Paço da Giela podemos também aprender mais sobre a vida nesta região, nomeadamente a importância da produção de vinho para as gentes locais, alguns dos quais ainda hoje se lembram de entrar no “castelo” para usar as adegas.

História na ponta da língua

Para provar a qualidade dos vinhos da região, assim como da comida que se adivinhava generosa, acolhedora como só o norte de Portugal sabe fazer, visitámos o restaurante Costa do Vez, que funciona hoje na antiga adega da Quinta de Silvares. As expectativas foram correspondidas, com pratos confecionados em forno de lenha a estabelecerem a ponte – essa constante nestas paragens – com os tempos mais antigos, em que a simplicidade dos utensílios e formas de cozinhar criaram uma identidade não só gastronómica mas cultural. Para terminar, os Travesseiros dos Arcos são a sobremesa obrigatória, um casamento entre hóstia e doce de ovos que deixa uma memória sensorial para adicionar às restantes, acumuladas durante o dia.

Com as pontes do rio Vez como ponto de partida, surge a ideia de acompanhar o fluxo da água e, tal como o rio Vez, esta viagem terá o seu término em direção ao Lima e… à sua ponte.

A estrada entre Arcos de Valdevez e Ponte de Lima, embora curta, dá a esta viagem uma vivacidade que torna o dia ainda mais gratificante. Bem suportado pelos bancos de alma mais desportiva do Classe A que conduzimos, o nosso corpo aguenta sem queixas as curvas e contracurvas que os 136 cv simplesmente colocam para trás, uma após outra. Nesta fase, quem ocupar o banco de trás pode entreter-se com as míticas expressões infantis de contentamento – “curva à esquerda!…”, “curva à direita!…” – ou observar a copa das árvores que abraçam o caminho, através do teto do carro, aberto para deixar entrar o ar da serra. Para quem vai ao volante, o contentamento não será menor, certamente, ainda que talvez mais contido.

À chegada a Ponte de Lima, mais uma feliz descoberta às margens do rio. Na extremidade norte da imponente ponte, o Museu do Brinquedo Português encerra de forma magistral um dia que qualquer família recordará e quererá repetir. Para além de ser o único museu do género a funcionar em Portugal, a história da produção industrial de brinquedos no nosso país é ainda mais enriquecida pelo cenário idílico dos jardins do Museu. Entre muitos soldadinhos de chumbo, jogos de tabuleiro inusitados e instrumentos musicais, apanhamos um vislumbre de uma coleção de carrinhos de brincar, onde pode ser identificado um ícone conhecido, uma estrela de três pontas como a que está na grelha frontal do carro estacionado na rua.

E assim, com a noite a chegar, o dia termina como começou, nas margens de um rio, com uma ponte a enquadrar todas as descobertas, experiências e memórias recolhidas.