O número mágico 222

O número mágico 222

Como pode um algoritmo matemático definir paixão, beleza, arrebatamento? Como pode uma máquina estar envolta em sentimentos? A resposta reside no número 222.

Dez segundos de reta por cada segundo passado a curvar. Esse é, aparentemente, o parâmetro essencial para definir qual a melhor estrada do mundo para conduzir – para conduzir por prazer, entenda-se. E em Portugal, num pequeno troço de estrada que acompanha o curso do rio Douro, testemunha-se a perfeição, ou pelo menos, algo muito próximo. A N222 é uma estrada nacional como muitas outras do nosso país: liga pequenas localidades entre Vila Nova de Gaia e Almendra, já bem perto da fronteira com nuestros hermanos, mas é em pouco mais de 27 quilómetros que adquire propriedades místicas, que já atraem pessoas de fora, com o propósito específico de conduzir entre Peso da Régua e Pinhão. Em relação a este troço de estrada, uma fórmula matemática tornou evidente aquilo que quem tem paixão pela arte de conduzir sente sem o recurso a uma calculadora: esta estrada pede para ser conduzida, de preferência com uma máquina à altura.

Foi ao volante de uma máquina como essas que rumámos a esse número mágico, o 222. Um Mercedes GLE, uma máquina imponente, um feito de engenharia que impressiona pela dimensão e pela forma como traduz a sua imensa força para o asfalto. Porquê um SUV e não um desportivo, talvez se questionem os leitores? A resposta prende-se com a própria essência da estrada escolhida, mas não vamos chegar já ao destino, sem percorrer o caminho.

 

Dois pesos, uma só Régua

No fim das descidas e subidas que caracterizam o caminho até ao Peso da Régua, encontramos uma cidade apoiada no rio, na sua estação de comboios, na “luta” entre a velha Régua e a nova, a que desponta no Museu do Douro, com uma fachada inconfundível, que resulta da reabilitação da Casa da Companhia, símbolo da Região Demarcada do Douro. Um espaço museológico que desenha a influência do Vinho do Porto sobre a região, sobre as suas gentes, a sua arquitetura, economia e paisagem. Ali bem perto, um edifício também com um traço modernista mas que se encontra paredes meias com um ponto vital da vida da Régua, um restaurante que tanto oferece vistas para o rio Douro como para as linhas de comboio e para as carruagens e composições – tanto novas e antigas. O Castas & Pratos foi a pit stop perfeita para preparar a tão antecipada condução na melhor estrada do mundo. Um espaço que, graças a esta dualidade de cenários, ladeado pelos dois maiores canais de comunicação da região do Douro (um fluído e outro férreo), também acaba por apresentar uma dupla personalidade, por vezes rústica, outras requintada, mas sempre de enorme qualidade. Sim é um restaurante, mas também é um wine bar com mais de 700 (!) referências de vinhos por onde escolher. Aqui, um ensopado de perdiz, por exemplo, é um prato que não é logo de início óbvio na sua verdadeira essência. Será um prato gourmet, ou será que estamos perante algo a fazer lembrar os pratos caseiros, que eram servidos a quem trabalhava naquele que foi o motor económico da região, o comércio e transporte de Vinho do Porto? A verdade é que esta necessidade de catalogar seja o que for é pálida quando comparada com o sabor tremendo e autêntico do prato, e essa é uma lição a ter em conta na etapa que se segue.

Razão versus paixão

Era chegada a hora. O Mercedes GLE fora devidamente colocado no modo Sport, em antecipação do traçado que nos esperava. Um rugido, um arranque dinâmico e a N222 começava lentamente a revelar os seus segredos.

Esta estrada não é apenas mais uma estrada, porque o asfalto que se encontra por cima da base de sustentação está inserido numa das mais belas paisagens que se pode desejar. As suas curvas são as curvas de um rio, formam uma dança, ora suave, ora apaixonada, ditada pelo compasso da erosão do tempo, pela maneira como a água moldou a geografia. Também a máquina evoluiu de acordo com o meio circundante, e o que podia ser apenas rodas e um motor é na verdade um instrumento que se adapta, que apresenta um dinamismo diferente numa estrada plana ou num troço de terra batida, cujo chassis “sente” a estrada e modifica o seu comportamento. Os quilómetros voaram e esse é normalmente um bom indício. Chegados ao Pinhão, parar quase parece contranatura, mas acaba por trazer os seus benefícios.

Uma paisagem de cortar a respiração, com as casas coloridas a popular as encostas, a ponte metálica a unir de forma poéticas as duas margens de um Douro que quase parece imóvel, um espelho perfeito. São várias as quintas que dão continuidade à tradição do vinho no Pinhão, mas talvez nenhuma com o apelo da Quinta do Bomfim. Uma propriedade da família Symington que não deixa de impressionar pela dimensão mas que ao mesmo tempo recebe com uma aura de enorme conforto, uma familiaridade acolhedora, como se este fosse o regresso a casa de amigos de longa data. As adegas (as centenárias e as state-of-the-art), as salas de provas com vista para o rio, onde os visitantes podem provar os vinhos do Porto e DOC Douro produzidos pela família Symington, as salas com um aspeto vintage, onde se pode simplesmente ficar sentado a ler… Todas estas áreas, ainda que extraordinárias, parecem de certa forma ficar em segundo plano comparadas com as vinhas da quinta, as quais podem e devem ser alvo das visitas guiadas a pé. Os socalcos de pedra, muitos deles construídos à mão há mais de 150 anos, as vistas de sonho, todo este ambiente que nos rodeava deu uma nova perspetiva ao percurso que nos trouxe até ali.

 

Uma equação por resolver

Como pode então um algoritmo matemático definir paixão? Como pode uma máquina sentir? Como pode uma estrada conduzir a duas viagens paralelas? A verdade é que este número, o 222, pode até ter algum misticismo inerente, um enigma que requer mais do que uma equação para explicar. Sim, em termos práticos é uma excelente estrada onde se pode conduzir de forma desportiva, negociar as curvas com maior ou menor agressividade, investir no acelerador para ultrapassar as retas, em suma, tecer o elogio à engenharia, tanto a que tornou possível a estrada como a que criou o automóvel. Mas há algo mais que escapa a estes campos do conhecimento, uma qualidade imaterial associada à paisagem, à memória destas encostas, deste curso de água e das pessoas que dele dependeram durante séculos. Encostar o GLE na N222, no percurso de regresso, foi tão gratificante como conduzi-lo ao limite e esse acaba por ser o grande trunfo deste troço e também do carro que escolhemos: uma estrada é construída não só para ser conduzida de A até B, mas também para preservar a história de tudo o que se encontra esses dois pontos. Um carro, um bom carro, não deve também ser escravo dos limites da engenharia. Muitas vezes o que define a sua qualidade é a capacidade de estabelecer uma ligação emocional com quem o conduz, ultrapassar a sua identidade de máquina e tornar-se também ele uma peça importante da paisagem.