Da urbe e do estilo

Da urbe e do estilo

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Um conto moderno de como uma cidade pode conter em si séculos de história e revelá-los em menos de 12 horas

 

O desafio era dantesco, ou pelo menos assim parecia: um roteiro do Porto, para mostrar o que de cool, fresco e vibrante se passa na cidade que é conhecida pelos seus monumentos mais antigos do que muitas memórias, os seus vinhos que aguardam durante décadas nas adegas, o seu rio que estava lá antes de qualquer português conquistar o seu nome. Com bagagem abundante e o tempo apertado, transportes públicos não eram uma opção viável e foi por isso que à chegada ao Aeroporto Francisco Sá Carneiro optei por um carro pequeno e ágil, o que atualmente se traduz em Smart.

Encontrado o meu companheiro para o desafio, acelerámos pelas vias rápidas que ligam a zona limítrofe da cidade ao seu centro histórico, tentando conquistar um avanço na batalha contra o tempo. Rapidamente dei por mim naquele que é um marco incontornável na paisagem portuense, a Torre dos Clérigos. Gravitar nesta direção foi um ato instintivo e como muitas das coisas que se fazem de forma espontânea, esta foi uma decisão acertada, porque a zona circundante está a ser ocupada por uma série de novos espaços onde o design impera, onde um público jovem e atualizado encontra novas experiências, novas sensações e novos sabores.

Sobre piadas e rimas

Um desses espaços é o La Piada, inaugurado há cerca de 8 meses na Rua Dr. Barbosa de Castro e que resulta da paixão de um designer português e de uma arquiteta italiana por uma especialidade culinária originária da região Emília-Romanha, a piadina. E que piada tem uma piadina? Para o designer transformado em restaurateur, Tomás Valle, toda, especialmente porque no La Piada existe uma política de atenção ao pormenor que é notória na escolha dos ingredientes, na sua grande maioria portugueses, biológicos, feitos com paixão por pessoas que faz questão de conhecer. Esta relação de proximidade com os fornecedores vê-se na qualidade da comida, não só nas piadinas mas também nas sobremesas originais como a “Bomba Cítrica” ou o “Cavaquissú”, que usa cavacas transmontanas em vez de “palitos la reine”.

 

 

Depois de alimentar o corpo, lembrei-me que na mala do Smart faltava algo importante: um livro. Nenhuma aventura ou viagem – por mais rápida ou curta que seja – pode ser realizada sem um livro por perto e é então que oiço um nome que não podia ser mais perfeito, “Flâneur”, palavra francesa que descreve os exploradores urbanos, os que deambulam e, curiosamente, o nome de uma livraria perto da Constituição.

O ambiente é do mais acolhedor possível, com milhares de livros à espera daquele momento em que entram de rompante nas nossas vidas e nos transportam para as vidas dos outros. Uma bicicleta junto ao balcão leva-me a perguntar à Cátia Monteiro e ao Arnaldo Vila Pouca o “porquê” e a resposta é surpreendente: quando os leitores não podem vir ter com os livros, os livros vão ter com os leitores, graças ao serviço de entregas em duas rodas da Flâneur – a génese do projeto, aliás. É daquelas histórias que também davam um livro, o que começou com um ou dois livros entregues numa bicicleta emprestada, desenvolveu-se numa campanha de crowdfunding bem-sucedida e agora o Porto tem mais um espaço dedicado à cultura, com pessoas simpáticas a aconselhar autores desconhecidos ou obras menos óbvias dos escritores incontornáveis. À saída da Flâneur, o banco de trás do Smart recebeu como ocupantes Pablo Neruda e Mahmud Darwich e a viagem prossegue com mais poesia.

Relíquias e crueldade

A cidade do Porto ganha muito do seu encanto fruto da relação amorosa com o rio e foi numa espécie de desejo voyeurista que conduzi até junto ao Douro, aproximando-me cada vez mais da zona da Ribeira e da Alfândega do Porto, para ver como se amam um rio e uma cidade. Ali perto, as letras de grande dimensão do Armazém são um ponto focal incontornável e a curiosidade impele-me a estacionar e entrar. Um local que não se encaixa em nenhuma descrição. É uma galeria de arte? É. É um café, um bar? Também. Um loja de antiguidades? Claro. E também se encontram à venda sabonetes artesanais, peças de roupa de assinatura, ilustrações, fotografias…

Uma das pessoas responsáveis por este espaço recentemente inaugurado tem a expressão perfeita para o descrever: “Tudo encaixa, tanto fica bem uma coisa nova como uma cadeira velha.” São as palavras de Raquel Cerqueira Gomes, que para além de ser cogerente do Armazém acumula funções enquanto descobridora de preciosidades, antiguidades, bric-à-brac variado e simplesmente encantador, desde raquetes do início do século XX a chapeleiras do XIX, com o ocasional galo articulado sentado numa prateleira a dar um ar mais extravagante à coleção que está à mostra e à venda na sua loja. Sentados perto da lareira gigante em frente ao bar, falamos sobre as coletivas de arte, as noites de DJ’s, toda a animação cultural que um armazém pode suportar com as suas vigas de madeira centenárias.

A noite cai, a estrada chama novamente e parto em busca de qualquer coisa para encerrar o dia de forma memorável. Deambulo um pouco pela marginal, vejo as luzes a passar por mim, os reflexos no rio, a forma majestosa como as pontes unem as duas margens, numa demonstração da eterna dualidade da cidade do Porto, com o ar moderno da Arrábida e do Freixo a contrastar com a essência histórica da D. Luís I e da Maria Pia e o seu toque de Gustave Eiffel. Acabo por subir, escalar as encostas da cidade, saciando o apetite do Smart por ruas inclinadas e estreitas e acabando por desenvolver o meu, quando a palavra “Cruel” na fachada de um restaurante da rua da Picaria se torna demasiado intrigante para ser possível ignorá-la.

 

 

O conceito deste que é um dos melhores novos restaurantes do Porto – uma opinião que não é só minha – vale por si só a visita. Três opções de menus, entre medroso, cauteloso e verdadeiramente cruel, este último onde se pode encontrar o prato que está a dar do que falar a quem aprecia novas experiências gastronómicas, o carpaccio de novilho com flor elétrica e pesto. Sim, flor elétrica, leu bem.

O ambiente é soberbo: decoração cuidada, com vários pormenores vintage, quatro zonas distintas (incluindo uma esplanada), um atendimento exemplar e cheio de simpatia, no ar a música de Fiona Apple… O Cruel transformou o final deste dia precisamente naquilo que eu ambicionava. Com um copo de bom vinho do Dão, os sabores que saíram da cozinha do Cruel ajudaram na revisão mental do que o dia tinha sido. Cool, fresco, cheio de surpresas, cheio das dicotomias de uma cidade de uma juventude antiquíssima. Por entre as imagens de postal que são o cartão de apresentação do Porto um pouco por todo o mundo, estão a nascer espaços empolgantes mesmo nas ruas mais escondidas, naquelas que são um desafio onde só se chega da maneira certa: por acaso e se nos tornarmos pequenos o suficiente para conseguir atingir a grandeza de uma cidade cuja alma não cessa de crescer.