Como vinho para chocolate

Como vinho para chocolate

Uma fábrica pode fabricar sonhos? Uma máquina pode conter essência? Sim, e basta passar por Viana do Castelo para comprovar isso mesmo.

Existe uma curva no famoso traçado de Nürburgring a que chamam de carrossel. Isto porque os carros entram nesta curva de forma cega, “caem” num banco inclinado e saem da curva após completarem uma volta de 210º, quase que fazendo um círculo total. Na subida para Santa Luzia, no topo de uma montanha em Viana do Castelo, contámos pelo menos duas curvas semelhantes, que tornam uma viagem em família num acontecimento, mesmo antes de chegar ao destino. Especialmente ao volante de um carro como o CLA Shooting Brake.

As curvas deste modelo são impressionantes, de tal forma que mesmo parado parece estar em movimento. A linha descendente que atravessa todo o seu comprimento ajuda a confundir quem necessita de a catalogar: a essência de um coupé mas a versatilidade de uma station? Será possível? Sem dúvida que é. E mesmo num traçado sinuoso como o que nos leva até este espantoso ponto de vista sobre a cidade, a Shooting Brake não deixa de impressionar pela forma como distribui o peso de forma dinâmica na suspensão, na forma como o corpo se ajusta aos ângulos das curvas, sem nunca parecer fora de ambiente. Podemos quase usar a expressão de que anda “sobre carris”, mas talvez isso levasse o Elevador de Santa Luzia a mudar de cor, do seu habitual amarelo para um verde invejoso…

Diz-nos a história que devemos o Santuário a uma doença oftalmológica, e as obras complexas das suas paredes ao mestre canteiro Emídio Pereira de Lima. Lima é um apelido bastante comum em Viana do Castelo, ou não fosse esse o nome do rio que desagua naquela cidade. Também não é de estranhar que tenha sido um Lima a fundar uma das mais interessantes empresas da região – e atrevemo-nos a dizer do país -, “Avianense”.

A fábrica de chocolates que José Lima fundou em 1914 transformou-se entretanto numa fábrica de sonhos, de forma bastante literal, no passado recente. É hoje um hotel, com quartos temáticos que retratam algumas das ligações que o chocolate estabeleceu com a literatura ou com o cinema, aludindo a Willy Wonka ou Hansel e Gretel, sem esquecer o filme Chocolate ou a obra de Laura Esquível a quem foi “roubado” o título deste artigo.

Mas na Fábrica de Chocolate existe ainda um museu, ideal para crianças e para adultos gulosos (por chocolate e conhecimento) que nos mostra o processo e as origens deste subproduto das civilizações mitológicas da América do Sul. Se Montezuma, o famoso imperador asteca, bebia 50 porções de cacau por dia, quem somos nós para dizer que não a um bombom ou até mesmo uma tablete? O que nos leva a um dos momentos decisivos das nossas vidas gastronómicas.

Pedro Araújo, Chef Executivo na Fábrica do Chocolate, recusa a apelidar-se de mestre chocolateiro.

Ainda assim, todos os anos passam pelas suas mãos mais de 3 toneladas desta iguaria, as quais são transformadas não só nos produtos que a loja do Museu comercializa, mas também utilizadas nos pratos que todos os dias o chef cria para o restaurante do hotel. Num vislumbre breve do que se passa num dos seus workshops (um dos componentes da experiência integrada que os hóspedes podem esperar da estadia na Fábrica), o chef explicou-nos que o chocolate, tal como o vinho, tem terroirs e castas.

Um forastero, por exemplo, é um chocolate continental, mais arredondado e intenso. Já um chocolate de Madagáscar pauta-se por notas frutadas e mais ácidas, termos decalcados da enologia mas que fazem todo o sentido quando experimentamos chocolates de grande qualidade, os gran crus que estão a uma distância abissal do que muitas vezes chamamos chocolate, e que por vezes nem tem enquadramento legal para assim ser chamado. Nem vamos falar de um dos mais raros chocolates do mundo, o Valrhona El Pedregal Porcelana, que em Portugal apenas pode ser encontrado nas mãos de Pedro Araújo.

Fomos espetadores privilegiados do processo de temperagem do chocolate, essencial para estabilizar a gordura da manteiga do cacau e alcançar o ponto de “quebra certeira”. Um processo semelhante ao que é utilizado para temperar metal, o que nos leva a acreditar que na técnica pode existir sabor, e na engenharia, todo um mundo de essência. Mas são precisas mãos experientes para transformar cacau num gran cru dos chocolates, ou metal num CLA Shooting Brake dos automóveis.