Com vista para a ria

Com vista para a ria

O que se esconde por entre dunas, entre os palheiros coloridos e a tradição marítima de Ílhavo? Esconde-se arte, modernismo, um olhar vanguardista sobre a ria e as suas possibilidades.

O autor tem uma confissão a fazer: o autor tem um certo fascínio por faróis. Existe algo de cativante numa estrutura que parece desafiar a gravidade e que tem como único propósito servir de guia na escuridão. Um farol é sempre, sempre, uma visão agradável. Para quem está no mar, significa um porto de abrigo por perto. Para quem está em terra, significa a promessa de aventura – ou no mínimo, a contemplação do vasto mar. Não é assim de estranhar que esta “história”, como tantas outras, comece junto a um farol.

O Farol da Barra, em Ílhavo, é o mais alto dos faróis portugueses e chegou mesmo a encontrar-se no sexto lugar no que diz respeito ao top mundial. Todos os anos, milhares de visitantes sobem os seus 288 degraus em espiral, para observar uma vista deslumbrante. Em dias de boa visibilidade, faz chegar a sua luz a mais de 23 milhas náuticas (cerca de 43 quilómetros) o que, juntamente com a cor vermelha da sua alvenaria em grés vermelho oriundo da localidade próxima de Eirol, torna este farol em algo que dificilmente passa despercebido.

À chegada a Ílhavo também sentimos esta dificuldade em permanecer inconspícuos, ainda que por razões diferentes. Não eram grés vermelho nem 62 metros de altura que atraiam olhares na nossa direção, mas sim o cinza metalizado e uma altura ao solo bastante mais reduzida do que o habitual do Classe C Coupé, um automóvel tão recente que poucas pessoas terão tido a oportunidade de o admirar e, tal como este que vos escreve, cair no mais agradável dos fascínios. Linhas que oscilam entre o suave e o agressivo, uma alma impetuosa que se adivinha por baixo do capô, a promessa de emoções fortes em estrada aberta… Talvez seja essa a razão da atração tanto por faróis como por carros desportivos, essa linha ténue em que habitam, entre a segurança e a aventura.

 

 

Dunas e cores vivas

Ílhavo tem um caráter profundamente marcado pela sua relação com o mar e a ria, que produzem algumas paisagens de tirar o fôlego e servem também para transmitir uma sensação de tranquilidade de um lado das dunas, ou a possibilidade de abraçar atividades mais radicais do outro lado. A praia da Costa Nova, por exemplo, é um dos locais mais procurados para praticar kitesurf ou windsurf. Mas esta zona, com os seus característicos palheiros, também é um dos melhores centros gastronómicos para quem procura os pratos tradicionais de marisco e peixe, sendo o bacalhau, por razões históricas, o rei à mesa em Ílhavo. Tanto que no Museu Marítimo de Ílhavo (MMI) tem direito a um aquário dedicado inteiramente a esta espécie.

Este museu é também a prova de que Ílhavo não está presa aos tempos idos, muito embora saiba – e bem – valorizar as tradições que esses tempos instilaram na região. A sua arquitetura moderna pode até levar a crer que se trata de um museu recentemente inaugurado, mas a verdade é que na sua forma original, o Museu Marítimo de Ílhavo já preserva a relação dos ilhavenses com o mar e a ria desde 1937. Nos dias que correm este pode muito bem ser um dos melhores espaços museológicos para compreender não só o impacto que a pesca do bacalhau teve a nível regional e nacional, mas também a herança cultural que um peixe deixou ao povo português. Para além do percurso em espiral do aquário dos bacalhaus, o MMI proporciona visitas ao navio-museu Santo André, antigo arrastão bacalhoeiro, e alberga um centro de investigação e empreendedorismo, o CIEMar-Ílhavo. Partindo da explicação do antigo, o MMI pretende fundamentar o futuro.

Artífices da porcelana

Atravessar a ponte sobre a ria no Classe C Coupé é uma experiência transformadora, não só porque uma reta extensa permite desvendar um pouco do enorme potencial dos seus mais de 200cv, mas também porque nos transporta para uma margem onde essa transformação é bastante literal. Talvez não compreenda de forma imediata a ligação entre argila, quartzo, caulim e feldspato, mas quando combinados estes quatro ingredientes, quando se procede à sua transformação, obtemos porcelana. E porcelana em Ílhavo – aliás, em Portugal – é sinónima de Vista Alegre. E também esta marca fundada em Ílhavo no ano de 1824 está a sofrer um processo transformativo, deixando de ser “apenas” uma fábrica, para ser um importante polo turístico que, por si só, deveria colocar Ílhavo como próximo ponto de itinerário a introduzir no seu GPS.

Para além da loja da Vista Alegre, onde são inúmeras as peças artísticas colocadas à venda, à qual se junta a loja dedicada a peças da coleção Bordallo Pinheiro, existe muito mais no universo Vista Alegre para fazer as delícias dos visitantes. Podemos falar da capela da Vista Alegre, reabilitada e iluminada de forma a realçar toda a sua beleza, mas o Museu acaba por roubar grande parte da atenção. Para além de testemunhar a evolução da porcelana portuguesa, naquele que foi o epicentro de toda esta indústria no nosso país, a fábrica que fez obras em porcelana para a realeza, o Museu prepara-se para abrir as portas de algumas etapas do processo de fabrico, possibilitando aos visitantes o enorme privilégio de ver em ação os artista responsáveis pelas pinturas decorativas das peças da Vista Alegre. Para colocar em perspetiva o verdadeiro valor deste pequeno vislumbre que agora se torna possível, imagine uma peça de entre coleções regulares e edições limitadas da marca: é nas mãos destes artífices que estas peças ganham vida, muitas das quais demoram mais de 7 dias a ser pintadas e por vezes mais de dois anos a ganhar forma, desde o desenho inicial até à cozedura final nas muflas, fornos que atingem temperaturas de 860º.

 

 

Ver a ria com novo olhar

E é pela mão destes artistas que são decoradas as paredes do hotel que abriu há poucos meses, mesmo ao lado do complexo do museu da Vista Alegre. Um hotel de 5 estrelas, onde o design impera mas que não esconde as suas origens. Em algumas salas ainda é possível ver as paredes originais, onde eram armazenadas as matérias-primas para o processo de fabrico da porcelana, há quase dois séculos. Os quartos ganham identidades próprias, relacionadas com as próprias coleções da Vista Alegre, pelo que uma visita a este hotel nunca será igual à seguinte. Esta reinterpretação da história, com uma ligação permanente ao aspeto tátil das porcelanas que tornaram Ílhavo (ainda) mais apetecível, torna o Montebelo Vista Alegre Hotel numa referência daquilo que as unidades hoteleiras podem e devem ser. Muito longe de se ter imposto no espaço que hoje ocupa, este hotel veio honrar o património arquitetónico, industrial, cultural e humano que a Vista Alegre tem construído ao longo destes vastos anos.

E o melhor? O melhor é mesmo a vista, e esta não é uma afirmação para ser tomada de ânimo leve. A ria de Aveiro, com o sol a espalhar os seus tons quentes não só na água mas também na fauna e na flora que acompanham o nosso olhar, são um bónus que não pode ser esquecido em toda esta história, que pode até ter começado num farol, mas que encontra neste prelúdio da escuridão um final de beleza maior, que mãos de artistas poderiam muito bem imortalizar numa peça de porcelana.