A estrada menos percorrida

A estrada menos percorrida

Por vezes, a melhor maneira de encontrarmos

o caminho é criá-lo

 

Já todos nós nos sentimos confinados pelos limites da nossa casa, do nosso trabalho, até da cidade em que vivemos. É um mal moderno este, o de por vezes darmos por nós com uma vontade inexplicável de fugir, nem que seja por uns momentos, uma espécie de dor de cabeça que não passa com um simples comprimido. É em momentos como esses que se toma a decisão de percorrer uma estrada, até que a estrada desapareça por completo.

Era cedo e os primeiros raios de luz tinham alguma dificuldade em atravessar o nevoeiro que a noite tinha deixado para trás. Na autoestrada, os faróis do Mercedes GLA funcionavam como uma bússola, deixando antever umas centenas de metros à minha frente, o que servia simultaneamente para reconfortar e adensar o espírito misterioso desta aventura que tinha até ali uma só regra: seguir em direção a este.

Após alguns quilómetros, várias dezenas deles, Amarante torna-se numa paragem inesperada, talvez porque a tranquilidade do rio Tâmega seja aliciante, em contraste com a agitação do quotidiano do qual nos afastamos. Conduzir pelas suas ruas estreitas e históricas é um momento agradável, pontuado pelos pormenores da arquitetura das suas casas do século XVII ou da Igreja de São Gonçalo. No interior da sacristia, Gonçalo de Amarante ainda espera por quem queira puxar a corda que segura o seu hábito, esperando ver concedidos três desejos. Contudo, os meus desejos são fáceis de realizar, e com um pouco mais de pressão no acelerador, deixo para trás esta belíssima paragem na Rota do Romântico, em busca de emoções um pouco mais fortes.

De volta à estrada, previsível, de curvas suaves, com o meu companheiro cujo coração é um motor diesel a tornar toda a experiência mais confortável, mais pacífica. A estrada bem podia ser feita de ar, de tal forma o carro parece torná-la mais lisa do que certamente ela é, mesmo a uma velocidade cruzeiro. Com o rádio ligado e a caixa automática a trabalhar de forma imaculada, a distância está a encurtar-se, muito embora ainda não seja certo o ponto de chegada. Estabelecemos um acordo entre homem e máquina, estipulando que até ao pôr-do-sol tanto eu como ele testaremos os nossos limites, em busca do nosso lado mais selvagem.

 

Mas antes de partir em busca do primitivo, um apetite civilizado leva-me a parar em Vila Real, onde o Cais da Villa estabelece um diálogo muito próprio, semelhante ao que eu próprio vinha a descobrir no GLA. Entre vestígios de um passado industrial, de armazém de manutenção de locomotivas, o Cais da Villa assume-se hoje como um espaço de comida e design modernos e requintados aos quais, contudo, se agarra com toda a força uma essência inquestionável, uma qualidade inata. Esta dupla personalidade só aumenta o encanto de ambos aos meus olhos e, com o carro parado em frente ao restaurante, começa uma luta entre os sabores que o Cais da Villa me apresenta no prato e o apelo de voltar à estrada e cumprir o acordo com que me tinha comprometido.

Ascensão

Um olhar rápido para o mapa encontrou a curta distância uma vasta mancha verde com um espelho de água de proporções consideráveis, uma premissa interessante para qualquer aventura. O Parque Natural do Alvão seria assim o destino e o caminho até lá estava à espera de ser descoberto.

O primeiro ponto na agenda é alterar os parâmetros de condução: se vamos sair de estrada é importante adotar a atitude correta e por isso, homem e carro assumem uma posição mais alerta, com maior rapidez de resposta, reflexos mais intuitivos. Para mim um café, para o GLA mudar de “Comfort” para “Sport” no modo de condução. E a partir daqui a a serra é nossa.

Curvas mais apertadas sucedem-se à medida que Vila Real se torna um ponto mais distante lá em baixo. Num troço mais apertado, é preciso negociar a passagem com uma máquina de corte de árvores e ficamos com uma pequena amostra do que nos espera mais à frente. A Barragem Cimeira aproxima-se, a uma altitude de 1060m, mas ainda se aproxima demasiado civilizada para os nossos intuitos. Se os limites devem ser testados, a estrada deve ser definida por nós e em espécie de desafio extra, fica a ideia de levar o GLA a “beber”, como fazem os animais selvagens nas savanas de África.

Com a barragem bem protegida por vedações, continuamos a subida e onde se avista um trilho acidentado começa realmente a prova da nossa essência mais primitiva. O rádio está desligado, assim como o controlo de tração e o silêncio da serra é rasgado pelo motor a conquistar inclinações acentuadas, onde a terra se mistura com pedras que provavelmente nunca antes tinham sido importunadas.

Alguns regatos indicam que estamos a progredir bem, mas ainda não são horas de declarar vitória: afinal de contas, por muito ténue que seja o caminho, ele ainda existe. Perto de Lamas de Ôlo, uma pequena aldeia embrulhada pela serra, encontra-se um planalto onde a urze e os carqueijais escondem alguns pequenos lagos, formados pela água da chuva e mantidos pela temperatura que a esta altitude, e como o sol a cair no horizonte, já começa a ser hostil quando se baixa o vidro do carro.

O caminho acabou. Neste momento o GLA vai descobrindo a meu pedido, a melhor forma de terminar a nossa aventura. Testámos os limites de máquina e homem, escapámos à clausura na cidade e a serra recompensou-nos. Um pôr-do-sol magnífico, água para saciar a nossa sede e a certeza de um caminho aberto por nós, para que outros o possam seguir.